sexta-feira, 25 de março de 2011

A revolta no grande projeto


Por Lúcio Flávio Pinto . 24.03.11 - 18h29


Duas das maiores obras em andamento no Brasil foram paralisadas na semana passada. Se fossem localizadas no sul do país, a grande imprensa nacional certamente daria o destaque compatível com a gravidade do acontecimento. Mas como os fatos se deram em Rondônia, no extremo oeste, o noticiário foi pequeno e insatisfatório.
Quando concluídas, as hidrelétricas de Jirau e Santo Antônio, no rio Madeira, terão absorvido em torno de R$ 30 bilhões, um custo equivalente ao da hidrelétrica de Belo Monte, que, se for construída mesmo, será a segunda maior do mundo – ao menos em capacidade nominal de geração de energia.
Como a usina do rio Xingu, no Pará, as duas barragens estão sendo levantadas depois de provocarem extensos e apaixonados debates sobre a inconveniência de colocar duas estruturas de concreto sobre o leito do rio que mais contribui em águas e sedimentos para o maior curso d’água do planeta, o Amazonas.
Três anos depois de iniciadas, as duas obras seguem uma tramitação acidentada e conflituosa. Desde 2009 seus operários fazem manifestações de protesto e reclamam dos salários, dos maus tratos e das condições de trabalho. A tensão veio num crescendo. Mas ao assumir sua forma mais grave, no dia 13, surpreendeu a todos por sua extrema violência.
Em dois dias de depredações, o canteiro de obras de Jirau foi quase todo destruído e os empregados, desmobilizados. Por cautela, os responsáveis por Santo Antônio, rio abaixo, decidiram também parar. Quase 30 mil pessoas empregadas nas duas obras tiveram que suspender suas atividades.
Incidentes têm sido uma constante nos “grandes projetos”. Houve quebra-quebra em Tucuruí, no Jari, no Trombetas ou em Carajás. Mas nada na escala do que aconteceu no Madeira. Nem com as características que ali elas assumiram. Os operários estavam insatisfeitos e até revoltados, mas a esmagadora maioria ficou fora dos atos de destruição, principalmente através de incêndios provocados. Muitos ficaram apavorados com o que viram e preferiram voltar aos seus locais de origem.
Segundo os responsáveis pela segurança no canteiro, os líderes das hostilidades adotaram uma tática original: atacavam e depois se escondiam no mato próximo. Os representantes sindicais não aprovaram a virulência empregada. A polícia foi violenta, mas não eficiente: não só não evitou a destruição como não chegou a identificar os que a provocaram. A decisão de desmobilizar a frente de trabalho também surpreendeu. Aparentemente, as autoridades e a empresa se sentiram impotentes para prevenir, remediar e reassumir o controle da situação o mais rápido que fosse possível.
Um incidente tão grave, a ponto de paralisar por completo as obras, contrastou com o ritmo intenso dos serviços até então. Os concessionários das duas usinas manifestaram a disposição de investir dois bilhões de reais além do orçamento definido para aumentar a capacidade de geração de energia e antecipar os prazos do cronograma. Jirau pretendia entrar em operação em setembro de 2015, mas o consórcio Energia Sustentável já trabalhava com a data de março do próximo ano. Em relação à estimativa original, o custo atualizado quase dobrou, para R$ 29,4 bilhões.
As modificações feitas na concepção que foi aprovada pelo governo para a outorga das duas concessões parecem determinadas por um fator fundamental: a subestimação dos custos. O consórcio que ganhou o leilão de Jirau se comprometeu com um deságio de 35% em relação ao preço mínimo fixado. Terá que oferecer energia a R$ 71 ou R$ 78 por megawatt/hora.
No último leilão promovido pela Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica), no final de dezembro do ano passado, o preço do MWh ficou em R$ 67,31, o mais baixo de todos os leilões de energia nova já realizados. E nem toda a energia ofertada foi arrematada.
Surpreendentemente, porém, a concessão da hidrelétrica de Teles Pires, a primeira das cinco usinas previstas para o rio Tapajós, também no Pará, foi obtida pelo consórcio Teles Pires Energia Eficiente por apenas R$ 58,35 o MWh, com deságio de 33% em relação ao valor mínimo estabelecido.
Certamente a redução teve a ver com a disputa pela concessão, já que, no mesmo dia, o vencedor da licitação para a usina de Santo Antônio, no rio Jari, ainda no Pará, ficou no preço mínimo, de R$ 140 (por se tratar de uma hidrelétrica de baixa capacidade, de apenas 300 MW), sem qualquer deságio.
O que se pode deduzir de fatos desconexos ou aparentemente irracionais é que o governo abriu uma frente de construção de hidrelétricas tão vasta e pesada na Amazônia que não consegue mais controlá-la. Às vezes sequer se pode discernir as informações exatas para uma avaliação segura e confiável do que ocorre.
Os consórcios que constroem as duas usinas do Madeira, porém, não desconhecem seus desafios e o significado do que estão fazendo. Não por acaso assinaram os dois maiores contratos de seguro em vigência no Brasil, no valor de quase R$ 17 bilhões. Os seguros incluem as fases de construção e operacional, além dos lucros cessantes por interrupção do negócio, como deve ser o caso dos incidentes em Jirau (calcula-se um prejuízo operacional diário de R$ 500 mil, fora os danos no canteiro). Os custos bilionários das duas usinas não incluem os juros durante a construção, as obras de transposição das duas barragens (pelo menos R$ 700 milhões) e as linhas de transmissão de energia.
Para alguns desses itens, é muito provável que o governo federal seja chamado a dar mais uma “colaboração”, que poderá crescer em função de ocorrências como a depredação do canteiro de Jirau. O incidente se transformou em caso de segurança pública (e pode ser um rastilho de pólvora numa região sempre conturbada, cuja condição a imigração intensiva nos últimos três anos agravou bastante).
O esquema societário dos consórcios que receberam as concessões é um fator de indução a esse desdobramento. Uma empresa estrangeira ou uma empreiteira têm o controle do capital, com mais de 50% das ações. Empresas estatais, do sistema Eletrobrás, fazem grande aporte de capital, subsidiadas pelo BNDES (que, em função das vultosas transferências feitas pelo tesouro nacional, se tornou maior do que o Banco Mundial), e agentes financeiros internacionais completam a quadratura do círculo.
Não surpreende que, enfrentando muitas e múltiplas reações, as obras das grandes hidrelétricas avancem como se quisessem resolver suas dificuldades com seus bulldozzers. Dispostas a passar por cima de quem estiver na frente. Os acontecimentos de Rondônia, porém, indicam que a barreira a superar é bem maior do que se presume.
Fonte: Yahoo notícias

Belo Monte: o diálogo que não houve

Dom Erwin Kräutler


Venho mais uma vez manifestar-me publicamente em relação ao projeto do Governo Federal de construir a Usina Hidrelétrica Belo Monte cujas consequências irreversíveis atingirão especialmente os municípios paraenses de Altamira, Anapu, Brasil Novo, Porto de Moz, Senador José Porfírio, Vitória do Xingu e os povos indígenas da região.

Como Bispo do Xingu e presidente do Cimi, solicitei uma audiência com a Presidente Dilma Rousseff para apresentar-lhe, à viva voz, nossas preocupações, questionamentos e todos os motivos que corroboram nossa posição contra Belo Monte. Lamento profundamente não ter sido recebido.

Diferentemente do que foi solicitado, o Governo me propôs um encontro com o Ministro de Estado da Secretaria Geral da Presidência da República, Gilberto Carvalho. No entanto, o Senhor Ministro declarou no dia 16 de março, em Brasília, diante de mais de uma centena de lideranças sociais e eclesiais, participantes de um Simpósio Sobre Mudanças Climáticas que “há no governo uma convicção firmada e fundada que tem que haver Belo Monte, que é possível, que é viável... Então, eu não vou dizer praDilma não fazer Belo Monte, porque eu acho que Belo Monte vai ter que ser construída”.

Esse posicionamento evidencia mais uma vez que ao Governo só interessa comunicar-nos as decisões tomadas, negando-nos qualquer diálogo aberto e substancial. Assim, uma reunião com o Ministro de Estado Gilberto Carvalho não faz nenhum sentido, razão pela qual resolvi declinar do convite.

Nestes últimos anos não medimos esforços para estabelecer um canal de diálogo com o Governo brasileiro acerca deste projeto. Infelizmente, constatamos que esse almejado diálogo foi inviabilizado já desde o início. As duas audiências realizadas com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em 19 de março e 22 de julho de 2009, não passaram de formalidades. Na segunda audiência, o ex-presidente nos prometeu que os representantes do setor energético, com brevidade, apresentariam uma resposta aos bem fundamentados questionamentos técnicos feitos à obra pelo Dr. Célio Bermann, professor do curso de pós-graduação em energia do Instituto de Eletrotécnica e Energia da Universidade de São Paulo. Essa resposta nunca foi dada, como também nunca foram levados em conta os argumentos técnicos contidos na Nota Pública do Painel de Especialistas, composto por 40 cientistas, pesquisadores e professores universitários.

Observamos, pelo contrário, na sequência a essas audiências, que técnicos do Ibama reclamaram estar sob pressão política para concluir com maior rapidez os seus pareceres e emitir a Licença Prévia para a construção da usina. Tais pressões políticas são de conhecimento público e motivaram, inclusive, a demissão de diversos diretores e presidentes do órgão ambiental oficial. Em seguida, foi concedida uma "Licença Específica", não prevista na legislação ambiental brasileira, para a instalação do canteiro de obras.

No dia 8 de fevereiro de 2011, povos indígenas, ribeirinhos, pequenos agricultores e representantes de diversas organizações da sociedade realizaram uma manifestação pública em frente ao Palácio do Planalto. Na ocasião, foi entregue um abaixo-assinado contrário à obra, contendo mais de 600 mil assinaturas. Embora houvessem solicitado uma audiência com bastante antecedência, não foram recebidos pela Presidente. Conseguiram apenas entregar ao ministro substituto da Secretaria Geral da Presidência, Rogério Sottili, uma carta em que apontaram uma série de argumentos para justificar o posicionamento contrário à obra. O ministro prometeu mais uma vez o diálogo e considerou a carta "um relato que prezo, talvez um dos mais importantes da minha relação política no Governo (...) vou levar este relato, esta carta, este manifesto de vocês, os reclamos de vocês...". Até o momento, nenhuma resposta!

As quatro audiências - realizadas em Altamira, Brasil Novo, Vitória do Xingu e Belém - não passaram de mero formalismo para chancelar decisões já tomadas pelo Governo e cumprir um protocolo. A maioria da população ameaçada não conseguiu se fazer presente. Pessoas contrárias à obra que conseguiram chegar aos locais das audiências não tiveram oportunidade real de participação e manifestação, devido ao descabido aparato bélico montado pela Polícia.

Até o presente momento, os índios não foram ouvidos. As "oitivas" indígenas não aconteceram. Algumas reuniões foram realizadas com o objetivo de informar os índios sobre a Usina. Os indígenas que fizeram constar em ata sua posição contrária à UHE Belo Monte foram tranquilizados por funcionários da Funai que as "oitivas" seriam realizadas posteriormente. Para surpresa de todos nós, as atas das reuniões informativas foram publicadas pelo Governo de maneira fraudulenta em um documento intitulado "Oitivas Indígenas". Esse fato foi denunciado pelos indígenas que participaram das reuniões. Com base nestas denúncias, peticionamos à Procuradoria Geral da República investigação e tomada de providências cabíveis.

A tese defendida pelo Sr. Maurício Tolmasquim, presidente da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), de que as aldeias indígenas não serão afetadas pela UHE Belo Monte, por não serem inundadas, é mera tentativa de confundir a opinião pública. Ocorrerá justamente o contrário: os habitantes, tanto nas aldeias como na margem do rio, ficarão praticamente sem água, em decorrência da redução do volume hídrico. Ora, esses povos vivem da pesca e da agricultura familiar e utilizam o rio para se locomover. Como chegarão a Altamira para fazer compras ou levar doentes, quando um paredão de 1.620 metros de comprimento e de 93 metros de altura for erguido diante deles?

Julgo fundamental esclarecer que não há nenhum estudo sobre o impacto que sofrerão os municípios à jusante, Senador José Porfírio e Porto de Moz, como também sobre a qualidade da água do reservatório a ser formado. Qual será o futuro de Altamira, com uma população atual de 105 mil habitantes, ao ser transformada numa península margeada por um lago podre e morto? Os atingidos pela barragem de Tucuruí tiveram que abandonar a região por causa de inúmeras pragas de mosquitos e doenças endêmicas. Mas os tecnocratas e políticos que vivem na capital federal simplesmente menosprezam a possibilidade de que o mesmo venha a acontecer em Altamira.

Alertamos a sociedade nacional e internacional que Belo Monte está sendo alicerçada na ilegalidade e na negação de diálogo com as populações atingidas, correndo o risco de ser construída sob o império da força armada, a exemplo do que vem ocorrendo com a Transposição das águas do rio São Francisco, no nordeste do país. 

O Governo Federal, no caso da construção da UHE Belo Monte, será diretamente responsável pela desgraça que desabará sobre a região do Xingu e sobre toda a Amazônia. 

Por fim, declaramos que nenhuma “condicionante” será capaz de justificar a UHE Belo Monte. Jamais aceitaremos esse projeto de morte. Continuaremos a apoiar a luta dos povos do Xingu contra a construção desse “monumento à insanidade”.



 

Dom Erwin Kräutler é bispo do Xingu e presidente do Cimi (Conselho Indigenista Missionário)

Fonte: Brasil de Fato

Comissão participa de audiência sobre Belo Monte


No próximo dia (7) quinta-feira, integrantes da Comissão de Direitos Humanos e Minorias, da Câmara Federal, estarão em Belém para participar da audiência pública que vai discutir a situação das famílias residentes na área de abrangência onde será instalada a hidrelétrica de Belo Monte, no Pará. A audiência foi solicitada pelo deputado federal, Arnaldo Jordy (PPS/Pa), vice-presidente da Comissão.


O evento será realizado no auditório da Assembléia Legislativa, a partir das 14 horas. Entre os participantes estão senadores, deputados, prefeitos, vereadores, Ministério das Minas e Energia, Eletrobrás, Associações Municipais, Instituto do Meio Ambiente da Amazônia, Associação Comercial, Consórcio de Municípios, Tribunal de Justiça do Estado, Ministério Público, Ordem dos Advogados do Brasil,  Confederação Nacional dos Bispos do Brasil, Universidades, Organizações Não Governamentais e outros órgãos e entidades interessados no debate da questão. A organização tem o apoio do Conselho Regional de Economia e do Ministério Público Federal.

Para solicitar a vinda da Comissão de Direitos Humanos, o parlamentar se baseou em relatórios que apontam a violação de uma série de direitos humanos no licenciamento da usina.O relatório da ONG Missão Xingu, por exemplo, teria demonstrado a preocupação dos movimentos sociais e das lideranças índigenas da região com os impactos sócios ambientais que não estariam suficientemente dimensionados. "Além de desalojar a população ribeirinha, a usina poderá, ainda, acelerar o aquecimento global, pois vai provocar a inundação da vegetação nativa e gerar gás metano, 20 vezes mais danoso do que o gás carbônico", justificou o deputado.

Segundo ele, a instalação de Belo Monte promoverá a redução de até 80% da vazão de um trecho de mais de 100 quilômetros do rio denominado de Volta Grande do Xingu e, também, atrairá à região uma população estimada em 100 mil pessoas, além de descolamento compulsório de outras 40 mil. Na área vivem ainda alguns grupos indígenas, como os Arara, Xikrin,Juruna, Parakanã, Assurini, Kararaô, Araweté, Xipais, Kuruaia e centenas de famílias que habitam as Unidades de Conservação que formam o corredor ecológico do Xingu e que podem ser penalizadas com o projeto.

Fonte: Diário do Pará

Usinas do Madeira: problemas nos projetos foram ignorados

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Desenho da esquerda arranjo de Santo Antônio por Furnas e Odebrecht - Desenho da direita arranjo proposto por Sultan Alam



Telma Monteiro


A vida útil das usinas do Madeira já foi objeto de discussão. Uma das principais dúvidas ainda é o assoreamento dos reservatórios das hidrelétricas Santo Antônio e Jirau. Em 2007, o governo contratou o especialista em sedimentos Sultan Alam para dar seu parecer sobre a usina de Santo Antônio.

O consultor internacional, na verdade, foi contratado pelo Ministério de Minas e Energia (MME) para "confirmar" a tese contida nos estudos de Furnas e Odebrecht de que não haveria assoreamento dos reservatórios e perda da vida útil dos empreendimentos. Especialistas e ambientalistas estavam bombardeando o governo com estudos que comprovam a inviabilidade de barrar o rio Madeira, o terceiro maior rio do mundo em transporte de sedimentos.

 Sultam Alam elaborou seu parecer sobre a usina de Santo Antônio com base na revisão de relatórios dos estudos de viabilidade, visita ao rio e análises das características de transporte de sedimentos com o reservatório a fio d’água. O reservatório a fio d'água, tem discursado o governo, reduziria os impactos ambientais.
O relatório original, em inglês, do consultor Sultan Alam, foi traduzido na íntegra pelo MME em janeiro de 2007. A minuta, ainda em inglês, só foi encaminhada ao Ibama três meses depois. A minuta da versão do Ibama, em português, foi juntada ao processo de licenciamento com diferenças de conteúdo e de número de páginas. Na versão incompleta faltava um estudo comparativo entre o arranjo original aprovado pela Aneel e outro, mais eficiente, proposto por Sultan Alam e que estava na versão original em inglês e na tradução do MME.

Em 2007, o especialista em hidrossedimentologia contratado pelo governo concluiu que o projeto da usina de Santo Antônio deveria ser alterado. Se fossem modificados os arranjos das estruturas haveria uma economia no custo das obras, diminuição do depósito de sedimentos junto à barragem, maior eficiência no funcionamento das turbinas e redução da área alagada.

Sultan Alam indicou a necessidade de melhorar o processo de saída de areia e cascalhos para evitar o assoreamento do reservatório. Portanto, ele assumiu que haveria assoreamento  e a redução da vida útil da usina. Sultan Alam, em outras palavras, apontou as fragilidades do projeto. 


No entanto, a interpretação que o MME e  a ex- Ministra Chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, fizeram do parecer de Sultan Alam, foi diferente. Para eles o parecer confirmara que não haveria assoreamento no reservatório e nem perda de vida útil das hidrelétricas,  além terem sido descartados os impactos na Bolívia.  

Sultan Alam detectou e enumerou os problemas no arranjo do projeto original da usina de Santo Antônio, da autoria de Furnas e Odebrecht. Alertou que haveria um custo maior para a sociedade e aumento no prazo de construção. Foi mais além. Fez várias recomendações que no final não foram divulgadas porque não iam de encontro aos interesses do governo. A seguir um texto extraído do relatório do especialista:
a "mudança (novo arranjo) deve alterar o procedimento, tempo e custo de construção. Isso pode eliminar a barragem de enrocamento e reduzir significantemente o volume total de escavação. A largura total da superfície d’água no reservatório a fio d’água seria de 1.700 m no lugar de 2.700 m, com redução de 1.000 m."

Sultan Alam enfatizou também a urgente necessidade de se contruir um modelo hidráulico reduzido para observar o comportamento dos sedimentos no reservatório e na barragem, tanto no arranjo original como no proposto por ele. Fez uma importante advertência: que deveria estar no projeto  formas adicionais de escoar a água em caso  de  cheias além do normal do rio (ele apontou que isso  não estava previsto no projeto aprovado) para evitar uma catástrofe no caso de  emergência. Esse detalhe extra na construção reduziria variações nos níveis de água a jusante e a montante no caso de uma parada total da usina.

Essas informações, conclusões e o layout da proposta do novo arranjo idealizado por Sultan Alam não foram divulgados pelo MME ou pelo Ibama. As sugestões de segurança significariam uma mudança no projeto que traria até redução dos custos das obras e dos impactos. Custos de construção menor levam a preço do MWh menor. 


Mais uma informação interessante: o parecer de Sultan Alam, contratado pelo governo, estava pronto em janeiro de 2007, antes, portanto, do Parecer Técnico 14/2007, de 21 de março de 2007, emitido pelo Ibama, que recomendava a não concessão da licença prévia. 


Em 12 de abril os técnicos do Ibama, através da Informação Técnica 17/2007, diante das novas e sérias dúvidas levantadas sobre a gestão de sedimentos, inclusive as do parecer de Sultan Alam, apresentaram um questionamento com 40 perguntas para serem respondidas pelos empreendedores.

Apesar dos riscos que prevalecem até hoje, a Licença Prévia para as duas usinas foi concedida em 9 de Julho de 2007. Em 2008 Sultan Alam foi contratado também para dar um parecer sobre Jirau.

Dúvidas que ainda não foram  esclarecidas:


O arranjo do projeto proposto por Sultan Alam faria cair o valor do MWh, no leilão da usina de Santo Antônio?
Foram realizadas as alterações de projeto e de segurança propostas por Sultan Alam?
Qual o motivo para que o  parecer de Sultan Alam levasse três meses para chegar ao Ibama?
Para ler o parecer completo de Sultan Alam em inglês, clique aqui.
Para ler a minuta da versão em português, clique aqui.
Para ler a versão completa em português, clique aqui.
Para ler o ofício do Ibama ao MME, clique aqui.

Fonte: telmadmonteiro.blogspot.com






quarta-feira, 23 de março de 2011

Como Jirau, Santo Antônio é paralisada

Sob forte clima de tensão, os 16 mil operários da usina de Santo Antônio, em Rondônia, voltaram ontem ao canteiro de obras comandado pela Odebrecht, mas decidiram cruzar os braços até o fim da negociação de uma extensa pauta de reivindicações. Não há prazo para a retomada do trabalho, paralisado desde sexta-feira, quando episódios de violência forçaram a saída de quase todos os 22 mil operários da vizinha usina de Jirau, no rio Madeira.

A apresentação das reivindicações quase se confunde com o dissídio da categoria, em maio. Os operários de Santo Antônio pedem reajuste de até 35%, maior participação nos lucros, alterações nos planos de saúde, revisão de descontos indevidos, redução das horas extras e dos preços nas lanchonetes privadas do canteiro. Porto Velho vive o drama da inflação de demanda, puxada pelos 40 mil operários e suas famílias. Os aluguéis são muito caros - o de uma casa de dois quartos é de R$ 2,5 mil - e há um déficit habitacional estimado em 15 mil unidades.



Fonte: Valor Econômico

Usinas hidrelétricas levam criminalidade a Rondônia

A região das obras das hidrelétricas de Jirau e Santo Antônio, em Rondônia, registra uma explosão de criminalidade e de casos de exploração sexual de crianças e adolescentes. O aumento dos problemas supera o ritmo do crescimento populacional.

A obra de Jirau foi palco de revolta de trabalhadores na semana passada -- o canteiro foi depredado.


As usinas começaram a ser construídas no segundo semestre de 2008. A população de Porto Velho, onde estão as duas obras, cresceu 12,5% entre aquele ano e 2010. A expansão populacional de Rondônia foi de 2,7%.

Já o número de homicídios dolosos na capital aumentou 44% no mesmo período. Para o promotor Aluildo de Oliveira Leite, que acompanha o impacto das obras, o efeito social das obras foi "subdimensionado".

A ampliação do hospital de base da cidade, que era prevista, não foi concluída.

Em janeiro, os Ministérios Públicos Estadual e Federal cobraram do governo do Estado e da prefeitura "ações sociais efetivas" para o distrito de Jaci-Paraná.

O objetivo, segundo o documento, é "reduzir a alarmante prostituição e tráfico de drogas" no local.

Segundo Raiclin Silva, do Juizado da Infância, as áreas próximas aos canteiros tinham participação mínima nos resgates de menores e agora são metade do total.

O número de estupros em Rondônia cresceu 76,5% de 2008 a 2010. A quantidade de crianças e adolescentes vítimas de abuso ou exploração sexual subiu 18% no período.

Mais de 37 mil funcionários, na maioria homens vindos de outros Estados, trabalham nas duas obras. "É como se houvesse um garimpo", diz Silva.

OUTRO LADO

Segundo o consórcio Energia Sustentável do Brasil, o programa de compensação da obra de Jirau prevê repasse de R$ 156 milhões ao governo estadual e prefeitura.

O consórcio Santo Antônio Energia disse que repassou recursos para a segurança pública estadual.
Já o governo estadual e a prefeitura não se pronunciaram. 

Colaborou LUCIANA RIBEIRO, de São Paulo
 
Fonte: Folha.com 

terça-feira, 22 de março de 2011

Charges sobre Belo Monte





BELO MONTE JÁ FOI BARRADO NOS ANOS 80. 
DESENVOLVIMENTO SIM , MAS SEM A MISÉRIA DE TROCO PELO LUCRO DE POUCOS.




Deseja algo mais sério?:

Fonte: PeledaTerra.blogspot.com

Rondônia: Mais de 8.000 operários abandonaram a UHE de Jirau e retornaram para seus estados



A maior parte dos operários da Usina Hidrelétrica de Jirau, em Rondônia, voltou para os seus estados de origem. No fim de semana, cerca de 10 mil funcionários ficaram instalados precariamente num ginásio de Porto Velho ou em ruas da capital.

O gigantesco conflito, com incêndio de alojamentos e veículos, gerou medo em moradores da cidade. Escolas e faculdades suspenderam aulas e o comércio fechou as portas. Também foram verificadas manifestações de preconceito contra os operários, principalmente pela internet. 

“A Camargo Corrêa tem de ver o que vai fazer, e dar destino a essas pessoas. Eles [a construtora] nos garantiram que até domingo (20) vão despachar boa parte desses funcionários para suas cidades de origem”, informou Santiago Roa Júnior, assessor da Secretaria de Segurança de Rondônia à Agência Brasil na sexta-feira (18).

Ajuste trabalhista
No sábado (19), a Justiça do Trabalho obrigou o consórcio a garantir, entre outras ações, vínculo empregatício e pagamento regular de salários durante a paralisação.  Ação Civil Pública impetrada pelo Ministério Público do Trabalhado resultou em decisão liminar determinando as empresas que executam a obra que cumpram incontinente várias obrigações quanto aos direitos dos trabalhadores.

O ajuste trabalhista e a decisão judicial puseram por terra o discurso de normalidade da empreiteira Camargo Correa, que lidera o consórcio de empresas transnacionais “Energia Sustentável do Brasil”.  CLIQUE AQUI E CONFIRA A ÍNTEGRA DA DECISÃO JUDICIAL

A Justiça do Trabalho, em sua decisão, determinou que fosse fornecido transporte (aéreo ou terrestre), sem ônus para os empregados recrutados fora de Porto Velho que optarem em retornar aos seus locais de origem, garantindo no mínimo três refeições diárias enquanto durar a viagem terrestre.


Trabalhadores narraram as péssimas condições de trabalho no local. Entre as denúncias, estão: diferenças salariais entre operários com mesma função, mas de empresas distintas; atraso no pagamento de horas extras; falta de infra-estrutura nos alojamentos; desrespeito por parte de supervisores (chamado de “comissários); operários de outros estados, a maioria, tinham a obrigatoriedade de permanecer no canteiro de obras por pelo menos 3 meses, quando tinham autorização de ver a família; constantes desmaios pelo calor e intensidade do trabalho, sendo vistos como “falta de vontade de trabalhar pelos comissários”; ausência de legitimidade do sindicato; demissão de operários que fazem denúncias trabalhistas; desrespeito com famílias ribeirinhas, recolocadas em áreas sem segurança e sem atendimento de saúde.

Retorno
Cerca de 180 trabalhadores da usina de Jirau desembarcaram neste domingo no aeroporto de Belém (PA). Depois de mais de duas horas de viagem em um voo fretado, a maioria ainda pegou um dos ônibus e micro-ônibus cedidos pela construtora Camargo Corrêa até chegar às cidades natais, no interior paraense.

Um operário relatou à Folha de São Paulo o modo como os colegas foram tratados em Porto Velho, sempre escoltados por policiais e com olhar temeroso de moradores.
Quando o grupo chegou ontem ao aeroporto em Rondônia, segundo ele, lojistas fecharam as portas com medo de saques.

Os trabalhadores têm, em sua maioria, como destino final cidades do Piauí, Amazonas, Maranhão e Pará.

Precarização continua
Cerca de dois mil funcionários ligados à empreiteira Camargo Corrêa permaneceram em um canteiro onde se pretende construir uma das casas de tomada de força da hidrelétrica. O local fica na margem oposta ao local do conflito trabalhista, com acesso só possível por meio de barcos.

Eles reclamam que foram abandonados no local, sem infra-estrutura, condições de acesso a outra margem e com grande acúmulo de lixo.
O consórcio responsável pela usina disse que a impossibilidade de deslocamento ocorreu apenas na quinta-feira passada. Também afirmou que já foi retomada a coleta de lixo e que os que quiserem voltar a seus Estados serão encaminhados e terão seus direitos trabalhistas garantidos.

Difícil recomeço
A Construtora Camargo Corrêa informou no final da tarde desta segunda-feira que não há data para reinício das obras da Usina de Jirau.

O Consórcio Construtor, responsável pela construção da Usina Hidrelétrica Santo Antônio, no Rio Madeira, em Rondônia, informou que as atividades do canteiro de obras voltarão à normalidade nesta terça-feira (22). As obras na usina foram interrompidas na última sexta-feira (19) por causa dos protestos dos trabalhadores em Jirau.

O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) anunciou que, apesar das paralisações, não vai suspender o financiamento aprovado de R$ 6,1 bilhões. 

História de desrespeitos trabalhistas
No ano passado, uma fiscalização do Ministério do Trabalho e Emprego produziu 330 autos de infração e a interditou equipamentos que estavam colocando em risco os trabalhadores da obra, que está sob responsabilidade da Camargo Corrêa, Suez, Eletrosul e Chesf.

Já em setembro de 2009, um grupo de 38 pessoas foi libertado de trabalho análogo à escravidão pela Superintendência Regional do Trabalho e Emprego de Rondônia e pelo Ministério Público do Trabalho, com apoio da Polícia Federal. As vítimas estavam trabalhando para a Construtora BS, que prestava serviço ao consórcio responsável pela construção de Jirau. 

*Com informações do Rondônia Agora, IUH, Folha de São Paulo, O Estado de São Paulo, Blog do Sakamoto e Agência Brasil.

Fonte: Blog do Cândido(Língua Ferina)

Empresas interessadas em Belo Monte recebem alerta sobre riscos à imagem

Empresas interessadas em Belo Monte recebem alerta sobre riscos à imagem
Onze empresas que se mostraram interessadas em substituir a Bertin no Consórcio Norte Energia receberam notificação extrajudicial que aponta riscos da usina e promete intensificação das campanhas nacionais e internacionais contra os construtores de Belo Monte.

Publicado em 22 de março de 2011 
Por Xingu Vivo
Uma notificação extrajudicial assinada por 17 entidades ligadas ao Movimento Xingu Vivo para Sempre foi enviada nesta terça, 22, às empresas Vale, Alcoa do Brasil, Arcelor Mittal Inox Brasil, Camargo Correa, China Three Gorges Corporation, CSN, EBX, GERDAU, State Grid, ThyssenKrupp CSA Siderúrgica do Atlântico Ltda. e Votorantim Energia, que já manifestaram interesse em participar do leilão que substituira a Bertin no Consórcio Norte Energia AS (NESA) que pretende construir a hidrelétrica de Belo Monte.
Na notificação, as empresas são alertadas sobre os elevados riscos associados a incertezas sobre os custos de construção do empreendimento, à ineficiência energética do projeto, e principalmente à instabilidade jurídica em função das dez ações civis públicas que ainda tramitam na justiça contra graves problemas no processo de licenciamento da usina. “Essas irregularidades, em conjunto com entraves no funcionamento do judiciário brasileiro, provocaram o envio de petições ao sistema de direitos humanos da ONU e à Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH)”, diz a notificação. De acordo com o documento, os problemas jurídicos são “elevados riscos para o empreendedor, sobretudo em termos do atendimento de futuras obrigações legais com os custos de mitigação e compensação de impactos sociais e ambientais, assim como elevados riscos de reputação”.
Como base para estes alertas, a notificação recorreu ao relatório “Mega-Projeto, Mega-riscos: Análise de Riscos para Investidores no Complexo Hidrelétrico de Belo Monte”, publicado em janeiro de 2011 pelas ONGs International Rivers e Amigos da Terra – Amazônia Brasileira (http://www.amazonia.org.br/arquivos/374461.pdf).

Danos à imagem
Além dos riscos econômicos e jurídicos, a notificação sublinha os riscos à imagem das empresas, visto a crescente oposição, em âmbito nacional e internacional, contra a usina e os altos impactos socioambientais e sobre as populações tradicionais e indígenas. E avisa: as empresas que se juntarem à NESA certamente enfrentarão “uma campanha ampla e contínua de grande alcance nacional e internacional, realizada por entidades da sociedade civil, envolvendo protestos, denúncias e outras ações de grande repercussão junto à opinião pública, não apenas durante a construção do empreendimento, mas também nos anos seguintes, quando os impactos negativos de Belo Monte se concretizarão. Essa campanha persistente certamente trará conseqüências significativas para a reputação desta empresa, nas esferas nacional e internacional”.


“Tweetasso”
As pressões sobre as empresas já começaram nesta terça. Com apoio de centenas de organizações e militantes nacionais e internacionais, o Movimento Xingu Vivo para Sempre iniciou um “tweetasso” ou “tweet mob” com o mote “ #Vale, #Gerdau, #ChinaStateGrid, #ThreeGorgesCorporation, #ThyssenKrupp, estamos de olho no seu apoio a #BeloMonte. #PareBeloMonte”. De acordo com o movimento, a campanha via mídias sociais deve se estender durante toda a semana e pretende pressionar as empresas para que repensem a participaçã no leilão que preencherá a vaga da Bertin.

Fonte: XinguVivo.org.br

Jirau é um sinal de alerta ao governo e seus empresários

“Jirau é um sinal de alerta ao governo e seus empresários”. O comentário integra a nota Aliança dos Rios da Amazônia, composta pelos Movimento Xingu Vivo para Sempre, Aliança Tapajós Vivo, Movimento Rio Madeira Vivo e Movimento Teles Pires Vivo, 21-03-2011.

Eis a nota.

Esta semana, o canteiro de obras da hidrelétrica de Jirau, em Rondônia, virou um campo de batalhas; depois um inferno em chamas; depois um deserto de cinzas e aço retorcido.

Jirau concentra todos os problemas possíveis: em ritmo descontrolado, trouxe à região o “desenvolvimento” da prostituição, do uso de drogas entre jovens pescadores e ribeirinhos, da especulação imobiliária, da elevação dos preços dos alimentos, das doenças sem atendimento, e de violências de todos os tipos.

Em Julho de 2010, as populações atingidas pela obra já protestavam contra o não cumprimento de condicionantes, desrespeito e irregularidades no processo de desapropriação/expulsão de suas áreas, fraudes nas indenizações, etc. Em outubro, mais de um ano após o início das obras, os ministérios públicos Federal e Estadual de Rondônia impetraram uma ação civil pública contra o Estado, o município de Porto Velho, a União, o Ibama, a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) e a Energia Sustentável do Brasil (ESBR, empresa responsável pelas obras), por descumprimento de condicionantes nas áreas de saúde, educação, transporte e segurança. Até hoje, 70% não saíram do papel.

Sobre as condições dos trabalhadores no canteiro de obras, em 2009 trinta e oito pessoas foram libertadas de trabalho análogo à escravidão em uma prestadora de serviço da usina. Em 2010, uma nova fiscalização em Jirau produziu 330 autos de infração por crimes trabalhistas. Nos distúrbios ocorridos esta semana, pipocaram denúncias contra a construtora Camargo Correia: maus tratos, irregularidades no pagamento, não-pagamento de horas extra, ameaças, etc. Foi o combustível que fez a bomba explodir.

Depois, o que se viu foram milhares de trabalhadores vagando perdidos, esfomeados, desamparados e desesperados, sem dinheiro, roupas, sem ter pra onde ir ou onde dormir. Por que? Porque mais de 70% dos barrageiros de Jirau são de outros estados, de acordo com a Assembléia Legislativa de RO. Os empregos prometidos para a região viraram fumaça.

Este mesmo “desenvolvimento” imposto ao rio Madeira ameaça agora as bacias do Xingu, do Tapajós e do Teles Pires no Pará e no Mato Grosso. O projeto de Belo Monte, o mais avançado nestes rios, segue com assustadora semelhança os passos de Jirau: licença de instalação parcial ilegal, autorizações de desmatamento, descumprimento acintoso das condicionantes, ameaças a ribeirinhos e pequenos agricultores para que vendam suas terras, desrespeito absoluto aos direitos constitucionais das populações indígenas, e migração acelerada e desordenada de trabalhadores de fora.

Em fevereiro, representantes das bacias do Madeira, Xingu, Tapajós e Teles Pires, que compõem a Aliança dos Rios da Amazônia, se reuniram com o governo, que prometeu abrir o diálogo com os movimentos. Nenhuma sinalização de que este diálogo realmente ocorrerá foi dada até agora, mais de um mês depois.

Nos solidarizamos profundamente com todos que sofreram e ainda sofrerão com as violências de Jirau. Nos solidarizamos com os trabalhadores, com as populações atingidas, com as populações das comunidades e das cidades da região.

Mas Jirau é um sinal de alerta ao governo – principal responsável, em última instância, por tudo que acontece nas obras do PAC – e seus empresários: as violações sistemáticas de direitos das populações mais cedo ou mais tarde levam à reação. Não ha desmandos que ficam impunes, nem ameaças que permaneçam sem respostas.


SANTO ANTÔNIO NÃO RETOMA OBRAS, MANDA 15 MIL PARA CASA E CONVERSA COM SINDICATO

Atualizada - Dirigentes do Sindicato dos Trabalhadores na Indústria da Construção Civil em Rondônia (Sticcero) estão em negociação com representantes do consórcio Santo Antônio Energia, formado pela Construtora Norberto Odebrecht e Furnas Centrais Elétricas. 

Por volta de 5h da manhã, sindicalistas que queriam entrar no canteiro de obras da usina foram barrados pelos seguranças. Houve desentendimento e aproximadamente 15 mil operários foram enviados novamente para Porto Velho. 

Paradas desde a última quinta-feira, após conflito de trabalhadores em Jirau, as obras na Usina de Santo Antônio seriam retomadas nesta terça-feira. 

De acordo com informações de seis operários ao Rondoniagora, a confusão no início da manhã foi entre sindicalistas e empregados. "O Sticcero queria garantir a retomada das obras de forma ordeira, mas há pendências entre operários e o próprio sindicato". 

Homens e mulheres que trabalham na Santo Antônio Energia exigem aumento do auxílio alimentação de R$ 110, 00 para R$ 300,00, além de uma espécie de plano de cargos, carreiras e salários.

Fonte: Rondoniagora.com

segunda-feira, 21 de março de 2011

Jirau e os acordos espúrios


 Acordos espúrios têm sido uma constante para viabilizar grandes empreendimentos do PAC na Amazônia, como as usinas Santo Antônio e Jirau no rio Madeira e Belo Monte, no rio Xingu. As conseqüências estão se avolumando. Invasões e saque por parte de madeireiros, pecuaristas e desmatadores em unidades de conservação e terras indígenas. E agora, a revolta justificada dos operários das obras de Jirau.

Telma Monteiro

O consórcio ESBR, responsável pelas obras de Jirau, tem sido protagonista de muitos casos de irregularidades desde que venceu a licitação em 2009. Um dos casos mais emblemáticos foi aquele que envolveu a mudança do projeto original sem os necessários estudos ambientais para a nova localização. Essa alteração de projeto iria afetar diretamente parte da Reserva Estadual do Rio Vermelho, não fosse um acordo imoral entre o ICMBIO, o Ministério do Meio Ambiente e o Governo de Rondônia.

Para o presidente do ICMBIO e o então Ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, a alteração da localização de Jirau foi legal. Porém, na época, o governador de Rondônia, Ivo Cassol, hoje senador, disse que não autorizaria as obras no novo local. Elas incidiriam na unidade de conservação estadual.

Numa clara chantagem, Cassol deu a entender que só daria a licença estadual se o governo federal garantisse a permanência de grileiros, madeireiros e invasores na Floresta Nacional (Flona) Bom Futuro. A Flona era palco de muitos conflitos e a justiça já havia pedido sua desintrusão. Como o reservatório de Jirau inundaria parte da Reserva Estadual Rio Vermelho e era preciso uma licença estadual, o governador queria fazer a troca indecente: legalização da Flona Bom Futuro pela licença de Jirau.

Sob denúncias de irregularidades, dentro do famoso “toma lá dá cá”, o acordo do governo de Rondônia com o governo federal saiu do papel somente um ano depois, com a publicação da Lei Federal nº 12.249 de 11/07/2010 que efetivou as alterações. Essa lei era, originalmente, a MP 472 que contava com mais de cem artigos e perdida no meio deles constava a mudança dos limites de três unidades de conservação de Rondônia. Assim o projeto de Jirau que teria sido descartado na nova localização, acabou sendo legalizado por caminhos tortuosos.

O presidente Lula sancionou essa lei em junho de 2010. A lei sancionada na calada da noite legitimou, então, a ocupação irregular da Flona Bom Futuro e foi complementada pela Lei Estadual nº 581 de 30/06/2010 que revogou as UCs estaduais e criou duas novas UCs na área desafetada da Floresta Bom Futuro. Tudo para contornar as ilegalidades no processo de licenciamento de Jirau, inclusive apontadas pela equipe técnia do Ibama.

O acordo indecente ainda está sub judice. Ele é objeto de Ação Civil Pública (ACP) ajuizada pelo Ministério Público em 2009 e questiona a legitimidade da permanência dos ocupantes invasores na Flona Bom Futuro e a redução da Reserva Estadual do Rio Vermelho pelo reservatório da usina, no novo local.

Jirau continua alvo de irregularidades. Agora estão surgindo os outros impactos sociais e ambientais não analisados nos estudos das usinas do Madeira. Mais de 10 mil operários, vítimas dos conflitos em Jirau, perderam seus empregos, estão de volta aos seus locais de origem ou em busca de abrigo e comida nas ruas de Porto Velho que já vem sofrendo com a falta de infra-estrutura.

Eis mais um exemplo daquilo que poderá ocorrer no futuro, em Belo Monte, caso a usina saia do papel.

Fonte: telmadmonteiro.blogspot.com

Confira a íntegra da decisão da Justiça do Trabalho deste sábado sobre trabalhadores de Jirau

A Justiça do Trabalho de Rondônia concedeu na noite deste sábado (19), em Ação Civil Pública impetrada pelo Ministério Público do Trabalhado, decisão liminar determinando as empresas Energia Sustentável do Brasil S/A e Construções e Comércio Camargo Corrêia S/A que cumpram até o prazo improrrogável de 24 horas, várias obrigações quanto aos direitos dos trabalhadores de Jirau, prevendo sérias sanções. Confira a íntegra:


Vistos etc.

I – Considerando a notoriedade do clima de insegurança e incerteza que ronda milhares de trabalhadores das empresas requeridas que se ativam no canteiro de obras da Usina de Jirau, Distrito de Jaci-Paraná, município de Porto Velho-RO, em razão do incidente de grandes proporções iniciado no dia 15/3/2011, terça-feira, que se prolongou pelos dias seguintes e culminou com a paralisação das obras e o consequente remanejamento para esta cidade de grande leva de operários então alojados no local de trabalho, causando apreensão na população, cujo evento em princípio tem como responsáveis as empresas rés, pois, em que pese a grandiosidade do empreendimento, em última instância detêm o dever de seguridade para com seus empregados(CLT, art. 2º), assim, considerando a excepcionalidade da situação fática narrada com clareza pelo autor(MPT) na prefacial, convenço-me da verossimilhança do direito postulado e do perigo de dano individual e coletivo irreparável, ou de difícil reparação e, em razão disso, com fundamento no art. 273, caput e inciso I do CPC defiro o pedido de antecipação de tutela para determinar às empresas ENERGIA SUSTENTÁVEL DO BRASIL S/A e CONSTRUÇÕES E COMÉRCIO CAMARGO CORRÊA S/A que cumpram incontinente, até o prazo improrrogável de 24(vinte e quatro) horas, as seguintes obrigações de fazer e pagar:

1) Garantir o vínculo empregatício de seus trabalhadores ativados no canteiro de obras da Usina de Jirau que queiram manter-se empregados, com o correspondente pagamento do salário enquanto perdurar a paralisação das obras;

2) Garantir o retorno dos empregados que tenham sido encaminhados aos seus locais de origem, para o reinício dos trabalhos;

3) Convocar direta e individualmente os empregados para o reinício dos trabalhos e comprovar a convocação mediante relação nominal fornecida ao sindicato da categoria(STICCERO);

4) Fornecer alimentação e hospedagem digna para os empregados sem moradia recrutados fora de Porto Velho e que optarem em permanecer nesta cidade, enquanto não forem reconstruído os alojamentos no local de trabalho;

5) Fornecer transporte (aéreo ou terrestre), sem ônus para os empregados recrutados fora que optarem em retornar aos seus locais de origem, garantindo no mínimo 03(três) refeições diárias enquanto durar a viagem terrestre, ou o equivalente em dinheiro(R$45,00 no mínimo por dia);

6) Pagar no prazo legal e em dinheiro as verbas rescisórias, bem como transporte de retorno ao local de origem, aos empregados que optarem pela rescisão do contrato;

7) Assegurar o pagamento das verbas rescisórias pessoalmente aos empregados encaminhados a seus locais de origem, cuja rescisão contratual tenha sido motivada pela empresa, arcando esta com as despesas de transporte a Porto Velho e as do correspondente retorno.

II – Para garantir a eficácia da decisão deste Juízo, as empresas rés sujeitar-se-ão ao seguinte pagamento:

1) multa de R$5 mil por trabalhador afetado e por cada um das obrigações supra descumpridas, corrigida monetariamente pela taxa SELIC, reversível ao FAT – Fundo de Amparo ao Trabalhador;

2) multa de R$500 mil, corrigida monetariamente pela taxa SELIC, reversível ao FAT – Fundo de Amparo ao Trabalhador, pelo descumprimento de qualquer das obrigações acima elencadas.

III – INTIMEM-SE com brevidade as empresas rés, nos seus escritórios aqui em Porto Velho, servindo o presente despacho como MANDADO DE INTIMAÇÃO.

IV – Cumprido o mandado, encaminhem-se a presente ACP ao Cartório Distribuidor dos Feitos de 1º Grau de Porto Velho-RO, na forma de praxe.

Porto Velho, 19 de março de 2011, às 23h.


AFRÂNIO VIANA GONÇALVES
Juiz Federal do Trabalho

Fonte: RONDONIAGORA.com

Para delegado, operários presos não cometeram crime

Os 12 operários presos por suspeita de participação no quebra-quebra das obras da usina hidrelétrica de Jirau, em Rondônia, na semana passada, têm média de idade de 25 anos. O mais novo tem 19 anos. Ao liberar 11 deles no final de semana - um ficou detido por ter mandado de prisão -, o delegado da Polícia Civil Vital Salvino Otonni escreveu no boletim que houve uma "manifestação" no canteiro das margens do rio Madeira e não ocorreu "qualquer fato criminoso" por parte dos detidos.

As avaliações do delegado diferem das versões apresentadas na última sexta-feira pelo secretário de Segurança de Rondônia, Marcelo Bessa, pela construtora Camargo Corrêa e pelo governador do Estado, Confúcio Moura, que classificaram os incidentes como "atos de vandalismo e criminalidade".

Fonte: rondoniagora.com 

CARTA ABERTA AOS ESTUDANTES DA UFOPA E À SOCIEDADE SANTARENA

            É latente a ausência de democracia na Universidade Federal do Oeste do Pará, desde sua criação oficial, em outubro de 2009. O reitor da UFOPA foi indicado de maneira unilateral pelo Ministro da Educação; não temos até hoje um Conselho Universitário, formado por representantes das três categorias (estudantes, professores e técnicos); todas as decisões importantes são tomadas unicamente pelo Reitor e sua equipe – inclusive a implantação da ‘nova’ estrutura acadêmica, que inclui, dentre outros aspectos, o CFI, bacharelados interdisciplinares e licenciaturas integradas.
            Há anos o movimento estudantil e os movimentos sociais vêm tentando dialogar com o corpo dirigente da Universidade, no sentido de instaurar um processo democrático na instituição. Inclusive apresentamos um projeto alternativo para a UFOPA, intitulado “A Universidade que queremos”. Entretanto, a maioria das nossas iniciativas não obteve êxito. A Reitoria é surda aos nossos clamores e, ao invés de abrir espaços públicos de discussão, prefere se pautar em atitudes autoritárias, reprimindo e intimidando os estudantes, professores e funcionários que ousam discordar do projeto (im)posto pelos donos do poder.
            É dentro desse contexto que realizamos o ato público do dia 18 de março de 2011, durante a aula magna no Auditório do Hotel Amazônia Boulevard, conforme deliberado na Assembléia geral dos estudantes do dia 17 de março. Nossa principal bandeira levantada na ocasião foi: Democracia/Diretas já! Afinal de contas, a comunidade acadêmica tem o direito de escolher o seu reitor e de decidir qual o modelo acadêmico melhor atende aos seus anseios, dentre outras questões.
            De fato, o momento em que interrompemos a programação da Reitoria não foi o mais adequado. Aliás, não era essa a nossa intenção. Entretanto, foi o único caminho que encontramos para nos fazer ouvir, já que os membros da Administração negaram a nós o direito de falar no evento – uma atitude claramente autoritária, a exemplo de não terem convidado o DCE [entidade máxima dos estudantes da UFOPA] para compor a mesa de abertura da aula magna.
            A Universidade é, por excelência, um espaço de produção de conhecimento e debate de idéias. Portanto, não podemos admitir essa ditadura do pensamento único, em que a única voz autorizada a se manifestar é a da Reitoria. Precisamos defender a plena liberdade de expressão e o amplo debate público de todas as questões pertinentes à UFOPA. O reitor não quer isso, mas nós lutaremos sempre para que todas as vozes sejam ouvidas na nossa Universidade. Nunca nos calarão!
            Por outro lado, é importante ressaltar que a falta de diálogo da Reitoria com o movimento estudantil gera vários efeitos negativos para a vida de todos os estudantes. A ausência de uma política séria de assistência estudantil é uma prova disso. Nunca constou no Projeto oficial da UFOPA a construção de uma Casa do Estudante, para abrigar acadêmicos oriundos de outros municípios. Um Restaurante Universitário sequer é cogitado pelo Sr. Seixas Lourenço. A estrutura física da nossa Universidade – salas de aula, bibliotecas, laboratórios, etc. - deixa muito a desejar. Ademais, as inúmeras dúvidas sobre o funcionamento do CFI nunca são respondidas satisfatoriamente pela Administração (o caso do Índice de Desempenho Acadêmico – IDA é emblemático nesse sentido).
            Por isso tudo, é extremamente importante que o corpo estudantil da UFOPA esteja sempre unido, de modo a reivindicar com eficácia suas demandas fundamentais. Não podemos nos render ao discurso maquiavélico de alguns setores que tentam colocar estudantes contra estudantes. Todos nós, ‘calouros’ e ‘veteranos’, fazemos parte de uma mesma categoria: os estudantes da UFOPA. Possuímos as mesmas demandas, sofremos dos mesmos problemas, temos sonhos e aspirações parecidos. E, o que é mais importante, todos nós almejamos uma Universidade pública de qualidade, que cumpra os desafios sociais que o povo da região espera; que contribua para o verdadeiro desenvolvimento da Amazônia, produzindo um conhecimento socialmente útil para a maioria da população.
            Como dizia o grande poeta Carlos Drummond de Andrade, não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas, construir a Universidade que queremos!
            Santarém/PA, 21 de março de 2011.
 
Diretório Central dos Estudantes da UFOPA (DCE/UFOPA)
União dos Estudantes de Ensino Superior de Santarém (UES)